Exposição - Cisterna da FBAUL (Universidade de Lisboa)

Entre as transparentes folhas do outono que suspendem o tempo e a luz que inunda o corpo do barro e da alma: um olhar sobre a obra plástica de Rozze Domingues na Cisterna da FBAUL

Existe uma linha condutora, invisível e sensível, que percorre o trabalho plástico da arquiteta e artista Rozze Domingues. Essa linha delicada, que sustenta e direciona os seus projetos pessoais e profissionais, percorre os caminhos mais sinuosos e misteriosos da arquitetura e das cidades, encontrando-se e desaguando no difícil território da arte e da cultura contemporâneas.

Rozze busca permanentemente um improvável equilíbrio entre forças contrárias, que enriquecem um universo dicotómico próprio, rico em nuances e subtilizas várias: a fragilidade da natureza e a sua permanente renovação; a artificialidade do habitar contemporâneo por oposição a uma mais próxima relação com o natural no homem e na natureza; a descoberta permanente de mil possibilidades de encantamento com a vida; a negação do fechamento dos outros ao “outro”, ao diferente e ao imprevisível; a procura incessante de pontes entre vários saberes e sabores, entre múltiplos contextos sociais e culturais, entre o permeável e o sensorial.

Rozze nega nas suas obras a artificialidade da imagem enganadora e da comunicação fútil da atualidade mediática e voraz, antes se concentrando em universos permeáveis ao deslumbramento e à descoberta de mundos alternativos fecundos em novas leituras e oportunidades.

É por essa razão que se deixou seduzir pelo vidro e pela cerâmica, cujas potencialidades tem vindo a explorar. Partindo da observação da cidade e do seu entorno, neste caso Lisboa e a sua área metropolitana, Rozze coreografou um teatro de acontecimentos mutáveis e imprevisíveis, criando uma obra singular que instalou na Cisterna da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Qual sacerdotisa percorrendo o espaço e evocando os Deuses que o habitavam em tempos idos, a artista invocou o genius loci do local através de uma leitura atenta de modulação dos arcos, da luz que penetra as aberturas e acaricia as paredes rugosas e esboroadas, dos sons que inundam de ecos esse espaço magnífico e redentor das almas e sacrificiais corpos.

Como num oráculo, onde se jogam os medos e os desejos e se pedem favores etéreos concretizáveis na vida terrena, também aqui Rozze percebeu que “a luz” se conquista através do cuidadoso tecer dos frágeis fios que constituem e robustecem essa luminosidade fugaz. Qual Ariadne, concebeu uma estratégia para trazer para o interior deste espaço interior e maternal – contentor pétreo, em outros tempos, do princípio da vida -, uma das estações do ano que mais a fascina: o Outono. Por oposição ao contínuo verde vivaz que inunda de vida as terras brasileiras, de onde é natural, esses meses aparentemente sombrios do continente europeu exerceram desde o início da sua estadia em Portugal um enorme fascínio, pela sua promessa de eterna renovação. No eterno Outono da vida das cidades europeias, ela observou o potencial regenerador dos estados d´alma das gentes e dos lugares, onde foi buscar inspiração para a obra que instalou na Cisterna. Nela, um eixo vertical invisível liga a abóbada de berço ao solo, revelando dezenas de fios que suspendem delicadas peças de vidro e sólidas formas de barro, criando um diálogo entre o mundo superior do éter e o mundo inferior de Hades, senhor dos mundos sombrios. No mesmo espaço, um espelho encastrado reflete e funde num todo coeso este princípio do mundo e dos sentidos, à espera que por ele passe e se torne refém um narciso curioso pela vida e pela mudança. Será Rozze o Narciso, a Sacerdotisa, Hades ou Ariadne? A meu ver, a artista é todos eles, pois a artista é ela própria a obra, numa fusão de identidades que, como o Outono que celebra, nela habitam a fragilidade e resiliência do mundo e se jogam todos os prazeres e as dores da humanidade.

– Prof. Dr. Fernando Quintas

Exposição realizada na Cisterna da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa – FBAUL, sob a curadoria do Professor Fernando Quintas e da Prof.a Marta Castelo.

ROZZE DOMINGUES

Artista multidisciplinar, Rozze não se deixa conduzir apenas pela delicadeza que possui no olhar. Sua força se revela na fuga do lugar comum.

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